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16/02/2019

Gilberto Verardo: "The wall ou muro invisível"




O ser humano parece obcecado em construir muros. Antes eram pequenos. Circundavam apenas casas ou espaços considerados restritos. Em épocas de maior insegurança eles se proliferam, ganhando adereços eletrônicos para denunciar não convidados. Assim, ouro se tornou uma espécie de símbolo de privacidade, mas também de insegurança.

O segundo disco mais tocado na década de 80 nas rádios brasileiras, The Wall, da banda inglesa Pink Floyd tinha como temática central a referencia aos muros internos e externos que as pessoas vão criando no decorrer da sua vida. Tijolos e cimento do muro interno são de ordem moral. Os externos são preconceitos disfarçados em segurança ou mesmo diferença de gosto. Também podem ser construídos para delimitar espaços vitais das pessoas, de territórios ou de nações. O muro revela que quanto maior sua altura maior a insegurança. Mas a presença de qualquer tipo de muro, interno ou externo, vai sempre impor limites.

The Wall tinha a intenção certa, derrubar muros e falar da sua inutilidade, já que seu papel é uma construção simbólica. Mesmo assim, cada vez maior o apego. Tá certo que às vezes ele pode realçar a beleza que cada um quer dar ao seu mini território, de modo a desvendar, além da privacidade ou insegurança, que há emoções escondidas por trás, que certamente não gostam de paredes ou muros, já que elas se expressam onde não existem muros pessoais, por isso há encontros.

Fico pensando nas pessoas que tomaram a iniciativa de derrubar o Muro de Berlim, tão simbólico na época foi um alimento para os libertários. Penso também no muro na fronteira entre o México e os EUA que o presidente Donald Trump teima em erguer. Talvez em razão de constatar que por maior que seja o poder não consegue se safar da insegurança, por isso, como forma de compensá-la quer mais muros, seja tarifário, de segregação migratória e até de concreto mesmo. Acaba caindo na percepção coletiva que sua politica externa obedece às suas emoções internas.

Prefiro as cercas e os quintais antigos. Eles tinham sempre árvores frutíferas. Do vão das cercas podia-se ver o amadurecimento das frutas, que como um convite aos vizinhos para trocar cumprimentos, palavras e frutas. Quase um desculpa para amadurecer contatos humanos.

Sinto uma ponta de inveja soa pássaros, que não conhecendo muros, no seu voo diário levam a liberdade que o homem perdeu quando a confundiu com individualidade extremada.

Pessoas podem se tornar muros, Basta exercitar o egocentrismo e a avareza. O afeto e a solidariedade são marretas que um dia derrubaram o muro entre as Alemanhas. Mesmo com todo o sucesso tecnológico das ultimas explorações espaciais, ainda teimamos em construir muros reais e simbólicos, internos e externos entre nós mesmos, como se isso prolongasse a vida. Mesmo que as muralhas da China a tivesse resguardado por muito tempo do desejo alheio, tornou-se obsoleta diante da novidade. 

Como, em canção, profetizou Geraldo Rocca “a novidade vem atrás da tradição”, empurrando as mentes para viver o máximo possível sem muros, que teimam em separar ideias e afetos, mas principalmente impedir liberdades iguais de nossas araras campo-grandenses, felizes e barulhentas. Talvez por se sentirem livres e sem muros para seu voo.

Matéria - Correio do Estado S/A

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