Em Portugal pela primeira vez, atuando com Roger Waters na Altice Arena, dias 20 e 21 de maio, Jonathan Wilson deu uma entrevista à BLITZ, e atuou em exclusivo no edifício do grupo.
Sobre a digressão com Roger Waters, contou-nos Jonathan Wilson: “Está a correr muito bem. Ando em digressão há nove semanas. Comecei com os meus próprios concertos, que depois desaguaram na digressão do Roger Waters”, explica, dizendo que só deverá regressar a casa perto do Natal. “Vou passar 2018 numa digressão permanente”.
Além de guitarrista na banda de Roger Waters, com quem tocou no álbum “Is This The Life We Really Want?”, o currículo deste norte-americano é notável, o músico sediado na Califórnia tem três álbuns solo, o mais recente, o elogiado “Rare Birds” saiu este ano, é o terceiro álbum solo de um percurso que começou nos anos 90 nos Muscadine. Entre a folk e o rock psicadélico, além disso, é um dos produtores mais requisitados do momento, sendo bem conhecida a sua ligação a Father John Misty.
Foi, aliás, a propósito da recente vinda do ex-Pink Floyd a Portugal que Wilson deu um salto a Paço de Arcos para visitar a BLITZ, dar-nos uma entrevista (alguns excertos podem ser vistos no vídeo em cima) e tocar em exclusivo para o INSIDE uma versão acústica do seu magnífico single 'There's a Light'.
Quanto à forma como o público tem reagido a uma digressão de forte mensagem política, partilha Jonathan Wilson: “É muito interessante observar, nos diferentes países e cidades, a forma como as pessoas se comportam. Alguns são tímidos e reservados até ao fim, mas em países como Portugal, espero que o público seja extremamente entusiasta. Isso deverá tornar o concerto divertido”.
Sobre a diferença entre o público norte-americano e o europeu, Jonathan Wilson afirma ainda: “Uma coisa que reparei é que, nos Estados Unidos, as pessoas aproveitam algumas das canções novas para irem buscar cerveja, porque pensam: 'isto não são as canções antigas dos Pink Floyd que eu conheço, mas o que é isto?'. Mas na Europa as pessoas ficam lá o tempo todo, respeitam o concerto todo”.
O autor de “Gentle Spirit” confessou igualmente que ainda tem “muitos momentos” em que se lembra, com espanto, que está com um Pink Floyd em palco. “Ainda penso isso muitas vezes!”, admitiu, entre risos. “Mas divertimo-nos todos muito, em palco. Temos um bom ambiente”.
Pouco depois da festa no Jamor propiciada pela final da Taça de Portugal, houve festa na Altice Arena com Roger Waters a dar um concerto… não, um espetáculo de 3 horas em que se juntaram uma excelente qualidade musical, uma experiência visual grandiosa e algumas mensagens políticas poderosíssimas.
Foi um evento maravilhoso aquele com que Roger Waters nos brindou na primeira de duas atuações que veio protagonizar em Lisboa. A expetativa era grande, a afluência foi enorme e o espetáculo foi maior ainda, indo muito para além da música (que já por si é ótima) e deixando a sua marca pela forte posição de oposição a muitos dos atuais líderes políticos, usando para tal uma panóplia de recursos visuais e materiais que elevaram por completo a escala de todo o concerto.
No fundo, foram 3 tipos de performances congeminadas numa só espantosa prestação, mas que eu irei agora separar para mais facilmente percebermos como tudo se conjugou num resultado final épico, digno de um “deus do Rock” como é o ex-baixista dos Pink Floyd
O espetáculo visual:
Grandioso. Impactante. Transcendente. Como se a componente auditiva de tudo o que se relaciona com Pink Floyd ou Roger Waters não fosse suficientemente boa, eis que nos deparamos com o complemento visual perfeito. Toda a performance musical foi sincronizada ao detalhe com vídeos nos ecrãs gigantes da Altice Arena. Não tentando sequer descrever o quão difícil é obter esse nível de precisão ao fazer música, opto antes por tentar falar do efeito que esse suporte visual teve sobre o público. O espectáculo foi dividido em duas partes, com um intervalo de cerca de 20 minutos pelo meio. Na primeira parte, foi como se estivéssemos a assistir a um videoclip incrivelmente longo e hipnotizante. Um videoclip que começa antes da própria música e até da entrada em palco da banda em si. Ainda havia público a movimentar-se para o interior da sala quando as primeiras imagens surgem, revelando uma mulher sentada nas dunas de uma praia, balançando-se muito levemente ao sabor do vento. A imagem torna-se, vários minutos depois, mais vermelha e, com alguma distorção à mistura leva-nos para o espaço e começamos a respirar as primeiras notas do concerto com “Breathe”. Aí começa o filme, com o vídeo a adaptar-se a cada música, cada nota, cada momento. A primeira metade passa-se assim, culminando com “Another Brick in the Wall” num estilo mais teatral com várias crianças em palco, simbolizando e apelando à resistência de todos àquilo que se passa de mal no mundo. E é pegando nesse mote lançado pelo fim da primeira parte que se inicia a segunda, erguendo-se no meio da plateia mais ecrãs que aumentam exponencialmente as potencialidades visuais que Roger Waters nos presenteou. A lógica de um vídeo contínuo permanece a mesma, mas os vídeos multiplicam-se e o seu teor é muito mais crítico e político. A teatralidade continua, com destaque para a as máscaras de porco que Roger e os outros membros envergam antes de “Pigs (three different ones)” e uma nota para o hilariante uso de um porco gigante insuflável que nos desafiava a mantermo-nos humanos. A única coisa que me pergunto em relação a esta impressionante estrutura cénica é se os ecrãs no meio da plateia não terão cortado a visão a alguns dos presentes com menos sorte que eu nos seus lugares.
A posição Política:
Quem o conhece já estaria a espera de uma forte componente política presente na sua atuação. O grande visado foi, previsivelmente, Donald Trump. Fortemente criticado e satirizado durante todo o espetáculo pelo desrespeito que demonstra pela humanidade. Chegou a ver-se, em bom Português, “O Trump é um porco” nos ecrãs. Mas houve mais figuras públicas a serem alvo de duras críticas pelo músico britânico. Entre elas Mark Zuckerberg, devido aos recentes acontecimentos relativos à violação de dados pessoais; e Gina Haspel, nova diretora da CIA que chega ao cargo nomeada por Trump e após ter estado envolvida em operações de tortura e violações dos direitos humanos. Durante o intervalo, passaram nos ecrãs da arena diversas mensagens que alertavam, entre outras coisas, para o crescimento de uma cultura neo-fascista em todo o mundo e para as barbaridades que se passam na Palestina. Acerca deste último ponto, Roger Waters, já perto do fim do concerto, diz que não sentiu necessidade de fazer grandes discursos porque as atrocidades cometidas e publicitadas pela IDF falam por si e terão substancialmente mais impacto na criação de uma cultura de resistência do que quaisquer palavras que o mesmo pudesse proferir. Disso não tenho a certeza, mas sei que aquilo que Roger fez ao longo desta noite de Domingo teve impacto e é de louvar alguém que com 74 anos ainda tenha força para combater o que acha errado e apelar ao não comodismo de todos os seus ouvintes.
A música:
Não foi por acaso que deixei aquilo que deve ser o foco de um concerto para o fim. Primeiro, realçar que notei uma Altice Arena com melhor qualidade de som que o normal (efeito Eurovisão?). Depois, e passando para a qualidade das músicas em si, essa é indiscutivelmente de topo, tanto as mais recentes e resultantes do seu trabalho a solo, como as mais antigas e conhecidas da icónica banda a qual pertenceu. Na primeira metade do concerto é inevitável destacar grandes êxitos dos Pink Floyd como “Wish you were here” ou “Another Brick in the Wall” (que contou com o apoio de dezenas de crianças em palco), mas também “Welcome to the Machine”, cujo suporte visual foi extremamente representativo da grande máquina capitalista que vai atropelando tudo e todos à sua frente. Se nesta primeira metade o cenário audiovisual já tomava grande protagonismo, após o intervalo, com o surgimento dos tais ecrãs no meio da plateia, parece que o espectáculo cénico passou a destacar-se por completo. Dei por mim muitas vezes de lado (e até de costas) para o palco a apreciar o que se passava nos ecrãs e em toda a Altice Arena. Dei por mim a tentar captar todos os detalhes e a interpretar todas as mensagens escritas que me sobrevoavam. Dei por mim e não estava a prestar a devida atenção à maravilhosa música proveniente daquele palco e daqueles prodigiosos intérpretes como Roger Waters e o já bem cotado na cena Indie e Prog Jonathan Wilson – que tão bem fez de David Gilmour durante toda a atuação –, tal como todos os restantes membros da banda que brilhavam cada um à sua maneira (até as cantoras de apoio tiveram o seu momento de solo e impressionaram todo o público). Se há algo que possa ser minimamente apontado de menos positivo a esta noite de domingo é isso: o facto de tanto estímulo visual presente ao mesmo tempo na arena por vezes retirar o foco à música em si (e aos músicos). O foco total e completo no palco viria, novamente, apenas no fim, coincidindo com o recolher dos ecrãs extra, com a apresentação da banda e com o discurso emotivo mas também de apelo à resistência e de sensibilização que Roger nos dirigiu. Ficámos então com “Wait for Her/Oceans Apart/Part of me died” e “Comfortably Numb” em tom de despedida de um espectáculo épico, que eleva a qualidade musical a patamares que não estão ao alcance de todos.
O facto de músicas que foram escritas há 40 anos serem tão atuais é representativo da intemporalidade de Roger Waters e da mensagem que tão alto reivindica. É, por isso, infrutífero tentar concluir a análise a algo que não tem conclusão e que, pelo contrário, nos inspira a todos, Us and Them, a sermos continuamente a Resistência e não ficarmos Confortably Numb com aquilo que nos rodeia.
Roger Waters (Full) Altice Arena,Lisboa,20 Mai 2018
O alinhamento foi composto na sua maioria por canções dos Pink Floyd da década de 1970, mas, no óptimo concerto que o seu antigo baixista deu domingo na Altice Arena (haverá um segundo esta segunda-feira), elas serviram para agir no presente. "Fuck the pigs!", exortou.
Fonte: Jornal Público - Ìpsilon MÁRIO LOPES 21 de Maio de 2018,
Time (2018-05-20)
Foi logo no final da primeira canção que Roger Waters, 74 anos que o corpo seco e a altura imponente não denuncia, caminhou até a um dos extremos do palco. Acenou ao público e ergueu o punho em sinal de união, de comunhão, de vitória. Acabávamos de ouvir Breathe, em interpretação imaculada no seu onirismo e melancolia, pela extraordinária banda que acompanha Waters. Ouvimos nela os versos que servem de mote àquilo que leva o antigo baixista dos Pink Floyd a querer continuar em palco, a querer continuar a tocar a música que criou ao longo das últimas cinco décadas. Aquilo que o leva a erguer o punho, no início, a bater com a mão no peito, no final, agradecendo emocionado ao público que lotou a Altice Arena este domingo, no primeiro dos dois concertos portugueses da digressão Us + Them.
The Great Gig in The Sky
Roger Waters
Lisboa, Altice Arena
Domingo, 20 de Maio
Lotação esgotada
Os tais versos, então. Dizem assim: “Run, rabbit, run / dig that hole, forget the sun / And when at last the work is done / Don’t sit down, it’s time to dig another one” – presos na máquina, continuamos, dia após dia, prisioneiros de algo que nos ultrapassa. A música aponta uma fuga e Roger Waters, 74 anos, acredita que a música pode acordar-nos, despertar-nos. Quando tudo terminou duas horas e meia depois, às 0h10, os confetti que caíram sobre a multidão tinham uma palavra inscrita: “Resist” – sim, é por acreditar que a música pode ser isso, resistência, que Roger Waters continua. Ao longo do concerto, o passado fez-se presente e entre Dogs e Pigs (three different ones), as canções que abriram a segunda parte do concerto, ambas incluídas originalmente em Animals, álbum de 1977, viu-se o presidente americano travestido de meretriz, em corpo de porco, com capuz do Ku-Klux-Klan, como bebé irritadiço, como figura de intervenção pop art satírica. Enquanto aquele boogie rock, cow-bell incluído, fazia o seu caminho, levitava por cima de nós esse clássico Floydiano que é o gigantesco porco insuflável – no dorso, a frase “mantém-te humano”, escrita em português e em inglês.
Pigs (Three Different Ones) 2018-05-20
O concerto de Roger Waters foi um concerto que aliou o impacto directo de uma banda em palco com a ambição cénica que desde muito cedo norteou a criatividade do músico. Enquanto o porco insuflável levitava sobre o público, já tinha descido alguns metros acima dele uma estrutura replicando a fábrica da capa de Animals, em cuja fachada foram, a partir de então, projectadas imagens da banda, as imagens de Trump, imagens de cenários de guerra, palavras de ordem incitando à acção. Exemplar, neste concerto, foi a forma como se conjugaram as duas vertentes, harmonizando-se sem que uma subjugasse a outra. Sentimo-lo desde o início.
A esmagadora maioria do concerto compôs-se de clássicos dos Pink Floyd, mas ouvi-los e, principalmente, ouvi-los interpretados daquela forma, com intenção, bom gosto e uma fidelidade aos originais que não diminuía o seu impacto, não foi apenas homenagem a uma obra fulcral na história da música popular urbana. Aqui voltamos ao início do texto, ao Roger Waters de punho erguido, ou ao Roger Waters que cantou Welcome to the machine, a canção distópica de Wish You Were Here, com esgar dramático, ameaçador, adequadíssimo àquele pedaço rock cyborg apocalíptico que soa ainda mais profético em 2018. É tudo uma questão de contexto: e estas canções, escolhidas para dar corpo ao tema da digressão – a necessidade de união, empatia entre todos e reacção perante a barbárie da guerra, da finança, dos crimes de Estado, da xenofobia —, cresceram imponentes perante nós (mesmo se, por vezes, de forma paradoxal, Waters parece agir como líder a comandar as massas num comício, o que é contraditório com a ideia de liberdade de pensamento e liberdade individual que conduz o concerto).
Dogs (2018-05-20)
Roger Waters alternou entre os momentos em que agarrou o baixo e aqueles em que, de microfone na mão, percorria o palco cantando, mimando o que o guitarrista Jonathan Wilson cantava (coube-lhe as partes originalmente cantadas por David Gilmour) ou incitando o público a reagir. O líder foi acompanhado por uma banda onde se destacava o baterista Joey Waronker, de um virtuosismo justo para as canções, nunca exibicionista, o guitarrista Dave Kilminster, fidelíssimo à escola Gilmour, ou o coro formado por Holly Laessig e Jess Wolfe, membros da banda americana Lucious e que, entre o dueto em The great gig in the sky ou os momentos em que pegaram em baquetas e, com dois timbalões de chão, acentuaram o tom marcial de um par de canções, nunca foram personagens secundárias em palco. Com este Roger Waters determinado e uma banda hábil e entusiasta, o concerto fez sobressair o melhor que tem esta música.
Dividido em duas partes, com um intervalo de vinte minutos a separá-las, o concerto de foi uma extraordinária prova de vida. Ouvimos o space-rock tumultuoso de One of these days, guiado por aquela titânica linha de baixo, ouvimos a cristalina Time e The last refugee, uma das canções do recente álbum de originais de Waters, Is This The Life We Really Want? (2017), e vimos os jovens do Centro Social Comunitário da Flamenga, em Lisboa, acompanharem Another brick in the Wall. Primeiro de cabeça tapada por capuz e vestindo fatos laranja de prisioneiros, depois de rosto destapado, dançando livres nas t-shirts negras onde se lia a palavra-chave: “Resist”.
No início da segunda parte do concerto, a banda, onde se inclui também, por exemplo, Bo Koster, teclista dos My Morning Jacket, reuniu-se em volta de uma mesa onde eram servidas flutes de champanhe. Vestiam máscaras de porcos com várias expressões, suínos demasiado humanos como no Triunfo dos Porcos de Orwell. Grunhiam e brindavam e um deles (Waters) ergueu um cartaz – “Pigs rule the world”. Acto contínuo, libertou-se da máscara e, rosto humano encarando-nos de frente, ergueu outra palavra de ordem: “Fuck the pigs!”. O mote sugerido desde início concretizava-se. Do diagnóstico ao combate.
Wish You Were Here (2018-05-20)
Viriam então depois as longas suites de Dogs e Pigs (three different ones), chegaria a intemporal Money e a obrigatória Us and them.The lunatic is on the grass, frase inicial de Brain damage, anunciou a caminhada para o final com Eclipse, enquanto se formava no ar, em laser, o icónico prisma de Dark Side of the Moon. O encore chegaria, depois da apresentação da banda, depois das vénias, com palavras contra a intervenção e política israelita na questão palestiniana. Depois, discursou sobre como apenas o acto de amar pode abrir brechas na barreira erguida entre nós e os outros. Wait for her, Oceans apart, Part of my died, pedaços de folk acústica que encerram o último álbum a solo, serviram de antecâmara para a despedida com Confortably numb, cantada por Jonathan Wilson, dono de uma muito respeitável carreira a solo (“o hippie da banda”, como apresentado por Waters). Como aconteceu mais vezes ao longo do concerto, foi acompanhada em coro pelo público.
Já toda a banda abandonara o palco e Roger Waters lá continuava. Punho erguido, mão batendo no peito. É por isto que ele, 74 anos, continua em palco. Acredita que tem razão. Acredita que a sua música faz acreditar. Acredita nela. Us + Them, verdadeiramente.