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22/04/2023

A animação que me mudou: Hisko Hulsing em 'Pink Floyd — The Wall' (Cartoon Brew)




Hisko Hulsing revisita sua adolescência para a edição desta semana de The Animation That Changed Me , uma série na qual artistas importantes discutem uma obra de animação que os influenciou profundamente.

Pintor, compositor, animador e diretor, Hulsing entrou em cena com seus curtas-metragens Harry Rents a Room, Seventeen e Junkyard (o último dos quais ganhou o grande prêmio no Ottawa Int'l Animation Festival). O cineasta holandês é diretor e designer de produção de Undone, a primeira série animada original da Amazon, e supervisionou os segmentos animados de Kurt Cobain: Montage of Heck, o retrato documental do vocalista do Nirvana.




A escolha de Hulsing é o longa-metragem de 1982 de Alan Parker, Pink Floyd - The Wall, uma dramatização do álbum conceitual homônimo da banda de rock britânica. O filme combina ação ao vivo com segmentos animados, dirigidos pelo renomado cartunista Gerald Scarfe. Abaixo, Hulsing fala sobre o que torna o filme especial para ele:

Lembro-me de ter visto Pink Floyd — The Wall em uma fita de vídeo durante uma visita a um amigo de meus pais que fumava maconha. Fiquei imediatamente impressionado com a música e a animação. Isso me atraiu. Aqui estava um filme insanamente lindo que era sobre mim! Sobre minha rica vida interior adolescente! Sobre a dor, a depressão e a loucura que senti.

Eu tinha quinze anos e fumava maconha diariamente. Eu estava chapado, nervoso e deprimido, e a maconha parecia mudar minha percepção de maneiras muito sombrias, criando alucinações e delírios confusos.

Hisko Hulsing
Hey! Teacher! Leave them kids alone!

The Wall romantizou completamente minha autopiedade e fez tudo parecer fantástico, bonito e alucinante. As sequências de animação foram ainda mais alucinantes do que minhas próprias viagens!

O filme também se encaixou muito bem na minha visão sombria da vida naquela época. Ele contém uma grande peça de animação que ilustrou perfeitamente como eu via a sociedade e a escola. Alunos sem rosto estão sendo espremidos em um picador de carne por um professor frustrado. Foi exatamente assim que me senti: espremido em um moedor de carne pela sociedade, para me encaixar perfeitamente no sistema e fazer parte de uma massa disforme uniforme, junto com meus pares.


Em retrospectiva, provavelmente me senti exatamente assim porque tinha visto The Wall … É realmente difícil saber depois de tantos anos. Hoje em dia tenho visões de mundo mais matizadas, não se preocupe. Não é tão ruim, pessoal!



Eu diria que a maior parte da animação é feita para entretenimento familiar e comédia, provavelmente porque a animação se adapta tão bem ao humor físico. Mas descobri por meio de The Wall e de outros filmes de animação que a animação também é um meio excelente para diluir as barreiras entre sonho e realidade e mostrar o mundo interior de um personagem.

Usei animação para retratar psicose e delírios em meus curtas-metragens Seventeen e Junkyard, e na série da Amazon Undone (com os showrunners Kate Purdy e Raphael Bob-Waksberg). F h unciona de uma forma bem estranha, porque os atores são rotoscopados. Primeiro filmamos os atores, depois os localizamos e os colocamos em um mundo pintado a óleo. O mundo parece muito real, mas também irreal, sonhador e pictórico. Nunca fica totalmente claro para o público se estamos em uma viagem na cabeça de Alma, que pode estar sofrendo de esquizofrenia, ou se estamos realmente assistindo à realidade.



Isso não poderia ser feito sem animação. Se tivéssemos filmado como uma série live-action, haveria uma distinção clara entre a realidade e todas as coisas estranhas acontecendo, o que criaria uma distância clara entre nós e Alma. Nosso objetivo era levar o público em uma viagem com Alma. Veja e sinta o que ela vê e sente, através da animação.

Em Montage of Heck, percebemos, é claro, que estávamos fazendo algo comparável a The Wall, pois estávamos integrando a animação à ação ao vivo. A diferença era que estávamos tentando capturar a vida interior de uma pessoa real – ou seja, o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain – e não de uma pessoa fictícia, como é o caso de The Wall .

Para Montage of Heck, tivemos oito minutos de áudio em fita cassete, com colagens de sons e histórias que Kurt Cobain gravou aos 20 anos. Seu uso de maconha, suas lutas na vida e até mesmo seus primeiros pensamentos suicidas. Parecia dar uma visão única de seu caráter problemático.

Como era apenas áudio, o diretor Brett Morgen precisava de recursos visuais que aprimorassem e contra narrassem esses fragmentos. Quando ele viu meu filme Junkyard, pensou que minhas animações sombrias e realistas complementariam muito bem o personagem de Kurt Cobain. Ele notou o mesmo tipo de energia bruta.



A história de amadurecimento que Kurt Cobain contou era tão semelhante ao meu próprio passado adolescente que me senti muito à vontade para animá-la. Não poderíamos ser muito psicodélicos, então a animação não poderia ser tão selvagem quanto The Wall. Mas nossa animação pictórica definitivamente parece sonhadora e estranha e ajuda o público a ter um vislumbre da vida interior rica e autopiedade de Kurt Cobain, assim como The Wall nos ajudou a entrar na cabeça de Floyd. Quase como em um sonho.

All Animated Scenes | Cobain: Montage Of Heck

Acho que The Wall foi construído como um álbum em primeiro lugar, não como um filme. Como muitas letras de músicas pop, [a narrativa do álbum] é tão vaga que é muito possível projetar todos os tipos de significados nela e sentir todos os tipos de sentimentos que podem ou não ter sido intencionados pelos escritores. Não há nada de errado nisso, e funciona para quem é sensível a toda aquela violência visual bombástica. Como eu.

Mas de um ponto de vista puramente narrativo, o filme muitas vezes carece de motivação. Poderia ser visto como uma série de fatias de vida bastante não relacionadas, magicamente costuradas com a música. Existem muitos elementos da história que parecem o início de pensamentos que nunca se cristalizam: paralelos entre as lutas da Segunda Guerra Mundial e os tumultos modernos, imagens fascistas, mídia de massa e shows pop. Muitas e muitas associações e dificilmente uma história real. Mas muito eficaz para alguns públicos!

Uma das coisas estranhas sobre The Wall é que parece um filme de animação com algumas belas cenas de ação ao vivo no meio, enquanto na verdade é o contrário. Há apenas 11 minutos de animação no filme. Mas a animação é usada de forma tão icônica e impressionante que se funde perfeitamente.

The Wall tocou por anos como um show noturno nos cinemas de Amsterdã. Eu assisti muitas vezes. Aparentemente, gosto de mergulhar de vez em quando no tipo de autopiedade melodramática que sentia quando era um maconheiro de 15 anos e reviver tudo de novo. Por que?!

Mas também ainda é muito inspirador. O rapper Kid Cudi uma vez me convidou para ir a LA para passar um tempo em sua casa e no estúdio de som de Hollywood onde ele estava gravando seu novo álbum. Ele adorava Montage of Heck e queria que eu fizesse um videoclipe longo e insano, encharcado de LSD. As paredes de sua casa foram decoradas com fotos de The Wall. Não havia como escapar da espessa camada de fumaça em sua casa e no estúdio. Parei de fumar maconha há 32 anos, mas seu fumo passivo me deixou chapado de novo. Não foi ruim, na verdade…

Kid Cudi e eu não nos demos muito bem, então aquele filme nunca se materializou, e ele foi institucionalizado não muito depois disso. No entanto, ele me deu muita inspiração para um curta-metragem que fiz um storyboard completo, mas que não posso fazer agora por falta de tempo. Por causa da segunda temporada de Undone, na verdade.



Eu descreveria o curta como uma mistura entre Pink Floyd – The Wall, a série impressa de Francisco Goya “The Disasters of War” e suas “Black Paintings”. Muito sombrio e intenso, animado pela fantástica música sinfônica de Dmitri Shostakovich. É o projeto dos meus sonhos, então deve se tornar realidade um dia!





Original: www.cartoonbrew





23/07/2020

Roger Waters: Há 30 anos, show "The Wall" celebrava Alemanha reunificada



Roger Waters fez história em 1990 ao levar "The Wall" como show beneficente à Berlim recém-reunificada. Mais do que um megaevento de rock, uma reencenação catártica da queda do Muro.

A Potsdamer Platz é um local de peso simbólico para a história alemã do século 20. Na metrópole em ascensão Berlim dos anos 1920, a praça evoluiu como polo não só para o tráfego cada vez mais intenso, mas também para uma cena cultural cosmopolita e inovadora.

Poucos anos mais tarde, pouco sobrava dela, a Segunda Guerra a destruíra quase completamente. O ditador Adolf Hitler escapou da justiça dos vencedores aliados cometendo suicídio no bunker subterrâneo próxima dela. Mas isso não foi tudo: também a subsequente divisão da Alemanha literalmente transcorreu na Potsdamer Platz, transformada em zona proibida na terra de ninguém do Muro de Berlim.

Assim, é quase impossível fazer jus ao significado do local e do momento, quando, em 21 de julho de 1990, o ano da reunificação alemã, Roger Waters, da banda Pink Floyd, encena o lendário show The Wall justamente na Potsdamer Platz.

Celebração da Alemanha reunificada

"Não é um comício do partido do Reich, tampouco uma convenção de fusão de dois partidos irmãos de Leste e Oeste", salientava em 1990 a revista Der Spiegel, ao anunciar o concerto, numa alusão aos grandes eventos típicos do século 20. Em vez disso, o que se realizou na icônica praça há exatamente 30 anos foi um concerto beneficente de dimensões gigantescas.


A construção do megapalco de 168 metros de largura e 41 metros de profundidade ocupou uns 600 trabalhadores durante mais de quatro semanas. Foram vendidos 220 mil ingressos com antecedência. De prontidão, estavam gruas para manipular colossais marionetes, assim como diversos helicópteros, uma banda de sopros do Exército Vermelho e participações musicais especiais do calibre de Bryan Adams, Cyndi Lauper ou a banda Scorpions.

E no entanto foram os sons mais suaves que ressoaram mais longamente. "What shall we use to fill the empty spaces where we used to talk" (O que vamos usar para encher os espaços vazios onde costumávamos conversar), pergunta, na canção Empty spaces, Pink, o protagonista do álbum estruturado como ópera-rock.

Como era sequer possível entender-se mutuamente, depois de tantos anos de separação e de confrontação de sistemas entre Leste e Oeste? A tentativa de resposta do show parece inequívoca, 30 anos mais tarde: apresentando o espaço de experiências recém-criado na Alemanha e aberto à vivência conjunta, como megaespetáculo de rock, a uma multidão estimada em 350 mil fãs – os portões haviam sido abertos por razões de segurança, devido à enorme afluência – e a centenas de milhões de espectadores diante da televisão.

Álbum icônico, show catártico

Antes de Berlim, o show The Wall já fora apresentado 31 vezes, nos Estados Unidos, Inglaterra e na cidade alemã de Dortmund, além de filmado em 1982, com Bob Geldof no papel principal. Mas sua origem foi o álbum homônimo, lançado em novembro de 1979. Ele marcara uma guinada estilística na música do Pink Floyd, o que não impediu uma duradoura trajetória de sucesso.

The Wall Live in Berlin von Roger Waters inszenierte Show und Konzert Performance 1990 in Berlin (Imago/Brigani-art)

Fãs mascarados no show de 1990

Com 19 milhões de cópias vendidas já em 1990, até hoje The Wall mantém o recorde de álbum duplo mais vendido, assim como de um dos 30 mais bem sucedidos no mundo. Por outro lado, esse sucesso acabou acarretando a saída de Roger Waters da banda em 1985.

O cantor e baixista, que também escrevera a maioria das canções, exigia o controle artístico exclusivo, o que resultou na briga e separação. Indagado numa entrevista se voltaria a apresentar a ópera-rock na íntegra, Waters respondeu com um decidido "não". Mas se o Muro de Berlim caísse, então se poderia pensar a respeito, acrescentou.

Quando, cinco anos mais tarde, o impensável aconteceu, o roqueiro foi imediatamente consultado: criada um ano antes com o fim de reunir doações para vítimas de catástrofes, a fundação britânica Memorial Fund for Disaster Relief planejava um concerto beneficente. Waters reuniu então uma banda para substituir musicalmente seus colegas do Pink Floyd.

O fato de que o lendário show ia além de "apenas" música fica claro, por exemplo, em Another brick in the wall, Part 1, "irmã mais nova" da canção mais famosa do álbum. O protagonista Pink pensa no paí que não retornou da guerra: "Daddy's flown across the ocean, leaving just a memory" (Papai voou através do oceano, só deixando uma lembrança). Essa memória é visualizada como um tijolo de isopor que, juntamente com outros traumas e vivências forma um muro crescente: "All in all it was just a brick in the wall" (No fim das contas, foi só um tijolo no muro).

Mais de 300 mil pessoas compareceram ao 
show histórico em 21 de julho de 1990

E mesmo que esse traumático muro simbólico se preste a diversas interpretações alternativas, para o concerto de 1990 em Berlim, a rigor, só existe uma: com 170 metros de largura e 25 metros de altura, o tremendo muro representava as lembranças dolorosas, biografias e realidades de vida dilaceradas da história alemã, assim como seu autoisolamento ideológico.

Nesse sentido, é também possível interpretar o fim do show como uma terapia de grupo histórica para a Alemanha reunificada. Quando, após duas horas de música e imagens, o muro cai ao som da palavra de ordem "Tear down the Wall" (Derrubem o muro), a multidão delirou: estavam esquecidas todas as panes técnicas, em parte graves, com quedas de energia e péssima qualidade de som.

Elas não passaram de acessórios incômodos de um espetáculo historicamente muito maior: a massa unida pelo evento, na Potsdamer Platz e diante dos monitores de TV, não apenas vivenciara um tremendo show de rock, mas fizera acontecer mais uma vez, numa catarse coletiva, a queda do Muro de Berlim.



Fonte: 2020 Deutsche Welle

18/05/2020

Roger Waters apresenta versão incrível do clássico “Mother”, durante isolamento social



"O distanciamento social é um mal necessário num mundo covarde." 
                                                                                                      Roger Waters


As versões virtuais de grandes sucessos da música têm se tornado momentos bastante confortantes nesse período de isolamento social que todos nós estamos passando.

E Waters, desta feita, contribui com um material incrivelmente emocionante que disponibilizou neste domingo (17). 

Roger Waters se juntou aos músicos que o acompanhavam na turnê Us + Them para gravar uma nova versão da canção “Mother”, do disco conceitual The Wall. O vídeo foi compartilhado nas redes sociais do ex-Pink Floyd. 

Entre os músicos da gravação estão as cantoras Holly Laesig e Jess Wolfe, da banda Lucius, o tecladista Drew Erickson, os guitarristas Dave Kilminster e Jonathan Wilson, o baixista Gus Seyffert e o baterista Joey Waronker.

Ver [vídeo acima] “Mother” me lembra o quão insubstituível é o prazer de fazer parte de uma banda”, diz a legenda do cantor em sua postagem no Facebook.

Sozinho no estúdio, Waters começa a cantar e tocar a canção no violão. Poucos segundos depois, a tela se divide e os outros músicos se juntam ao astro do rock, cada um no próprio estúdio. No final, Waters diz: “Nós devíamos fazer isso de novo, certo?”.







Fontes: Roger Waters, Rolling Stone, 89FM

09/01/2020

Pink Floyd: The Wall, uma parábola sobre a alienação (vídeo)


Parte 1


Parte 2


Parte 3



Canal Rock pelo Rock

As visões de um fã comum do Pink Floyd sobre as motivações do disco The Wall. Como Waters produziu uma linda parábola sobre a alienação.




Fonte: Whiplash.Net | 08/01/20
Por Oscar Marcelo Paiva, Fonte: Canal Rock pelo Rock

30/11/2019

The Wall completa 40 anos, um muro nascido da alienação








De SAPO (Portugal)
Paulo André Cecílio
Pink Floyd: 40 anos de um muro nascido da alienação

O mundo parecia, aos olhos de Roger Waters, um imenso e inóspito vazio para onde fora atirado em nome do estrelato, onde em cada esquina uma sanguessuga se dispunha a deixá-lo apenas ossos, onde a verdade havia sido substituída por uma década de luzes e de trips psicodélicas, de histórias sobre loucura e morte, de saudades de amizades passadas, de governos maquiavélicos. O mundo, para Roger Waters, deixara de ser um conforto. Pior ainda: o mundo era-lhe agora desconhecido.

O culpado, o muro. Não um muro físico, mas um muro psicológico, mental, que o escondia numa tentativa de o fazer sobreviver, mesmo que essa perspetiva fosse, a cada dia, menos gloriosa. Waters, e o Pink Floyd, haviam chegado ao patamar que todas as bandas almejam; mas o resultado não veio sem os seus sacrifícios. A perda de Syd Barrett em 1968 fora a primeira. As dívidas excessivas vieram a seguir. O isolamento dos membros do grupo em razão de diretrizes conflitantes, Waters que tomou as rédeas do Pink Floyd na era pós-Barrett, mostrava-se cada vez menos disposto a abrir-se ao mundo, a abrir mão da sua criatividade para a juntar às dos outros.


A história começa com o muro e o muro começou a ser construído muito antes do Pink Floyd existir. Em 1944, com apenas cinco meses de idade, Waters perderia o pai na II Grande Guerra, durante a chamada Operação Shingle, na Itália, onde mais de 43 mil soldados Aliados perderam a vida. O trauma cresceria durante a infância e seria figura omnipresente ao longo de quase toda a sua vida. Um trauma que depressa se transformaria num sentimento de traição. Eric Fletcher Waters, o pai, tinha-se declarado objetor de consciência no período da Guerra, mudando as suas posições pacifistas mais tarde e juntando-se ao exército britânico. A traição sentida está precisamente nisso: no fato de Eric ter abandonado os seus ideais, apenas para, em última análise, morrer.

Não foi a única traição. No final dos anos 70, o Pink Floyd estava no topo do mundo – nem a explosão punk conseguiu tira-lo do pódio – mas o sucesso, como comprovado vezes sem conta, é uma faca de dois gumes. Mais discos e mais concertos esgotados significavam mais pessoas, mas não necessariamente uma compreensão da mensagem (filosófica, política) que o Pink Floyd e Waters tentavam passar. E o ponto de ebulição foi atingido em 1977, durante um concerto no Estádio Olímpico de Montreal, parte da digressão “In the Flesh”, na qual o Pink Floyd tocou pela primeira vez em estádios.

"Odiei, porque os concertos tinham se transformado numa espécie de evento social, e não numa relação normal e controlada entre músicos e o público. As filas da frente gritavam, gesticulavam, não prestavam de fato atenção ao que ouviam. Quem estava mais atrás, não conseguia ver nada..."


A alienação sentida entre Waters e público, derivada desta mesma ideia – que parece soar tão verdadeira ainda hoje... – levou o músico a fazer algo que até então seria impensável: cuspir num dos seus próprios fãs. E, ao contrário do que pensavam os punks de 1977, sempre dispostos a escarrar para o palco, a saliva não era de todo um elogio. Waters terminava a construção do seu muro, a antítese da ideia de humanidade: ela não existe se nos isolarmos dos humanos. Mas tinha que pô-lo abaixo, então voltar a superfície para respirar.


O primeiro passo, de forma algo paradoxal, foi o de reconstruir esse muro, musical e literalmente. “The Wall” é sobretudo a história de Roger Waters e de como ele foi sofrendo até não aguentar mais, ao longo da sua carreira. História essa que é personificada por Pink, artista rock que vê o pai morrer na Guerra, que sofre bullying por parte dos seus professores primários, que se torna numa estrela amante de todo o tipo de deboches e que se isola do mundo em agonia misantropa, imaginando-se fascista e genocida, até um julgamento criado na sua própria cabeça o levar a descobrir que (ainda) há esperança na Terra.


Já no Pink Floyd, havia o vermelho: em 1978, as finanças do grupo estavam de tal forma escassas que era necessário compor imediatamente um disco. Culpa do Norton Warburg Group, empresa de gestão financeira a quem os músicos haviam confiado o seu dinheiro e que o perdeu em diversos investimentos de risco. Não fosse por “The Wall” e o Pink Floyd poderia muito bem ter decretado falência e terminado ali, há 40 anos. Mas compô-lo poderia ser uma tarefa complicada sem alguém que lhes mostrasse o caminho. E esse alguém foi o produtor Bob Ezrin, que havia trabalhado com nomes como Alice Cooper ou Lou Reed e que ajudou a banda, e Waters, a encontrarem-se.

O resultado é uma das obras mais densas do Pink Floyd, e o disco a que comumente associamos a expressão “ópera rock” (mesmo que “Tommy”, do The Who, o preceda em dez anos). Uma hora e vinte minutos de magia e soberba musical, agrupando vários estilos distintos: rock espacial ('In the Flesh?'), pós-rock antes de o termo ser cunhado ('Another Brick in the Wall, Part 1'), pop ('Another Brick in the Wall, Part 2'), folk ('Mother'), ópera propriamente dita ('The Trial') e, claro, o tom melódico de 'Comfortably Numb', onde os solos de guitarra de David Gilmour tomam a dianteira e elevam todo “The Wall” ao status de culto.


Para além do som, a imagem – não só a que era criada em cada ouvinte com recurso aos poemas de Waters, mas também a que, em 1982, chegou aos cinemas pela mão de Alan Parker e Gerald Scarfe, com Bob Geldof no papel principal. “The Wall”, o filme, foi três anos após o disco um enorme sucesso a nível da crítica, tendo sem dúvida contribuído para ainda hoje falarmos da música com tanto respeito e carinho. A fusão perfeita entre todos os aspectos de criação. Uma obra de arte total.


À altura, nem foi visto dessa forma: muitos críticos insurgiram-se contra o maximalismo e o pretensiosismo da obra (convenhamos que, no final dos anos 70, o punk olhava dessa forma para tudo o que não fosse feito a partir de três acordes), que só começou a ganhar um estatuto canônico nas décadas seguintes ao seu lançamento. Mas o que a crítica não via, via-o o público, que o levou ao número um no ranking de vendas durante várias semanas. Ao álbum, e à canção que com o passar do tempo alcançou um status ainda maior que o do álbum: 'Another Brick in the Wall, Part 2', que fora do seu contexto passou a ser cantada por milhões de gargantas ao redor do planeta como canção de protesto. We don't need no thoughts control... 


Para além de todo o existencialismo presente na obra, e talvez sua maior virtude, está o fato de também transmitir uma mensagem de esperança aliada a um conselho precioso: quanto mais nos isolamos do mundo, quantos mais muros construímos, mais abrimos espaço ao ódio quando deveríamos preenchê-lo com o amor. O disco termina e começa com uma frase cortada a meio – Não foi por aqui que viemos? – atestando à natureza cíclica dos muros, um loop imenso de depressão e apatia. Mas essas podem ser vencidas, e os muros podem ser derrubados, e as lutas podem ser constantes e eternas para nos lembrar de que estamos vivos. A grande lição de um disco como “The Wall”, relembrando sempre que um muro físico nos tolda o senso comum (seja em Berlim, seja em Israel, seja nos Estados Unidos), é a de que a fragilidade e o medo existem para serem vencidos. 40 anos depois, não olvidemos essa mensagem.




14 motivos para amar o disco do Pink Floyd


O álbum conta com um conceito complexo e profundo baseado no personagem fictício Pink. E apesar da recepção inicial mista, o disco ganhou 23 x platina desde 30 de novembro de 1979, e gerou o único hit pop número 1 da história do Pink Floyd, "Another Brick in the Wall, Pt. 2".

Uma obra de arte do rock. Assim, listamos 14 motivos para amar The Wall do Pink Floyd:

Abertura


1. A abertura oferece o primeiro leitmotiv do disco acompanhado das guitarras trovejantes de David Gilmour e o teclado de Fred Mandel. Esta é realmente uma ópera rock, uma peça singular criada por Roger Waters com precisão, profunda prudência e tato.

2. Waters começa o disco com a seguinte questão: "Então, você pensou que gostaria de ir ao show." Mas, nos adverte que a história a seguir não é uma opção alegre para esquecer problemas e ouvir rock and roll.


3. Os estrondosos motores de avião no final de "In the Flesh?" e o choro do bebê em "The Thin Ice" são uma viagem de abertura ao início da narrativa em The Wall, imergindo-nos totalmente não apenas na música, mas em todo conceito histórico do disco focado no personagem fictício Pink baseado em Waters.

4. A interação entre a voz suave de David Gilmour com a voz maníaca e às vezes dominadora de Waters é um tema ao longo do disco. "The Thin Ice" é uma letra emotiva sobre a relação de Pink com os pais.

Another Brick in the Wall, Pt. 1



5. As duas primeiras faixas soam como um prólogo para a história que virá em "Another Brick in the Wall, Pt. 1" quando o pai de Pink morre na guerra. De agora em diante, não há como voltar atrás, é preciso ouvir o disco até o final, pois Pink, tomado pela dor, começa a se isolar da sociedade.


6. As guitarras pesadas com atraso de Gilmour são incríveis na "Parte 1", tocando com blues, funk e elementos de rock and roll nas linhas de sintetizador.

The Happiest Days of Our Lives

7. A linha de baixo de abertura é tão punitiva quanto os professores tirânicos da escola que causam mais sofrimento a Pink e fomentam a separação social.


Another Brick in the Wall, Pt. 2

8. Pink Floyd pegou uma batida de disco e transformou-a em um hino de angústia adolescente. É o único hit número 1 da banda, em grande parte devido à química rigorosa deles, com Nick Mason dando a batida, Waters a linha de baixo e Gilmour arranca acordes de funk como Nile Rodgers antes de sair para um inesquecível solo de blues.



Mother


9. Lembrando-nos dos hits acústicos do Pink Floyd, como "Wish You Were Here", "Mother" novamente explora os relacionamentos arrogantes e sufocantes de Pink, que o forçam a se afastar da realidade e se aprofundar mais em si mesmo.



10. A assinatura do tempo da música é engenhosamente complexa, espelhando a instabilidade de Pink neste momento da vida e o relacionamento não sincronizado com a mãe.

Goodbye Blue Sky




11. Gilmour se lembra do blitz e das "bombas caindo" sobre arpejos sombrios da guitarra. A música se torna mais pesada pela natureza semi-autobiográfica, pois o pai de Waters foi morto na Segunda Guerra Mundial.


Empty Spaces/Young Lust

12. A maneira como o diálogo interno espacial de "Empty Spaces" transforma-se em "Young Lust", um clássico dos anos 70, é dramático e perfeito. OPink Floyd emprega um som de rock mais comercial aqui para comentar a sexualização casual no rock and roll e impulsionar a narrativa do álbum para a frente, enquanto Pink usa o sexo para lidar com a ansiedade e depressão.




One of My Turns/Don’t Leave Me Now

13. As performances do sintetizador nessas duas faixas são tão tensas quanto Pink convida uma groupie a voltar para o quarto antes da música explodir em um frenesi maníaco e suicida.



Another Brick in the Wall, Pt. 3/Goodbye Cruel World

14. A maneira como as três partes de "Another Brick in the Wall" vão aumentando a intensidade é um dos desenvolvimentos geniais do disco. Contendo muitas das mesmas facetas melódicas e instrumentais das antecessores, a "Parte 3" viu Pink percorrer um buraco negro em espiral, entrando em loucura, ódio e descontentamento, levando-o a silenciar todas as vozes externas e mergulhar 'atrás da parede' em "Goodbye Cruel World".

Gerald Scarfe






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David Gilmour


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